Tuesday, June 07, 2005

Um nome marcado a ferro


Otto von Bismarck

Quando, em 23 de setembro de 1862, Otto von Bismarck foi declarado primeiro-ministro do Reino da Prússia, a Europa começou a trilhar um caminho diverso do que vivera até então. Alçado ao poder em meio a uma disputa entre o Rei e o Parlamento pela definição do orçamento das Forças Armadas, o austero ex-diplomata usaria uma incrível engenhosidade estratégica e uma crescente máquina industrial para marcar um ponto de mudança no equilíbrio continental. Antes de analisar como foi este processo e quais foram suas conseqüências, no entanto, faz-se necessário descrever o cenário internacional prévio.

Paralelamente à ascensão de Bismarck ao poder prussiano, o sistema que regera o mundo desde o Congresso de Viena vinha sofrendo duros golpes. A Guerra na Criméia acabara havia menos de uma década, destruindo qualquer resquício da Santa Aliança e fundamentando desconfianças múltiplas entre os governantes das grandes potências. A França de Napoleão III emergia como um Estado capaz dos mais variados atos para recuperar seu prestígio e sua imponência; a Grã-Bretanha concentrava esforços na realização do imperialismo. Em pior situação, a Rússia administrava os efeitos políticos e econômicos da derrota no Mediterrâneo, além de nutrir um certo desprezo por uma Áustria que, enfraquecida, abandonara o princípio das legitimidades e apoiara a coalizão anglo-francesa na década anterior. O Tzar não imaginava – e é compreensível que não o fizesse –, entretanto, que o grande revés para os austríacos já começava a ser preparado. Empenhados na resolução das inúmeras disputas internas e preocupados com a contínua eclosão de revoltas nacionalistas dentro de seus domínios, os Habsburgos há muito haviam perdido o poder de barganha tão minuciosamente construído por Metternich. Às voltas com problemas domésticos, não se interessavam, em curto prazo, pela unificação germânica e, tampouco, atentavam o quanto deveriam para os passos trilhados por sua vizinha Prússia. Não à toa, quando os líderes austríacos captaram a ameaça a eles apresentada por Bismarck, já era tarde demais para “se virar o jogo”.

Associar a perda de influência da Áustria apenas a seus problemas internos, todavia, incorreria em grave equívoco. Mais do que falta de percepção dos Habsburgos, foi determinante para uma unificação liderada pela Prússia a capacidade de Bismarck de mesclar a diplomacia (adaptando a raison d’État para realpolitik) com o poderio bélico para atingir seus objetivos. Nas três guerras em que se envolveu para promover a união alemã, o chamado Chanceler de Ferro tanto induziu, com as palavras, seus adversários ao conflito quanto conseguiu vitórias arrasadoras. Utilizando as flagrantes diferenças de administração dos ducados adquiridos para a Confederação Germânica três anos antes, ele desafiou o poder austríaco. Manobrando o ego e as aspirações de Napoleão III, ele teve o êxito de fazer a guerra que garantiu os últimos territórios necessários à formação da Alemanha. Em todos estes episódios – e em qualquer outro em que se envolveu após 1871 –, deixando explícito seu desprendimento em relação a qualquer ética específica, preferindo, à la Richelieu, ater-se apenas ao que interessasse e coubesse a seu Estado.

Em último aspecto, o principal legado que Otto von Bismarck deixou para a história foi sua quase paradoxal inclinação para a moderação. Sem jamais permitir que a Prússia e, posteriormente, a Alemanha dessem “passos maiores do que as pernas”, ele se deteve a uma criteriosa mensuração de suas perspectivas antes de tomar qualquer decisão. Talvez por isso, apesar de sua postura conservadora, exposta na lealdade ao rei e em relativa subjugação do Parlamento, ele tenha sido também um grande modernizador. Conhecendo a fundo as debilidades das áreas que comandou, ele teve a preocupação de reformular suas Forças Armadas (implementando a noção de serviço militar como um dever cívico em si), de unificar mercados, de incentivar a indústria. Não satisfeito, fez o que pôde para impor seu país na corrida imperialista e para convencer os nacionais da importância de uma germanização que, a seu modo, fosse capaz de fazer frente à forte cultura francesa (por ele considerada medíocre). Fica em aberto, entretanto, definir se a capacidade de Bismarck de levar a Alemanha ao rol das grandes potências compensou os reveses decorrentes de alguns de seus atos. Até que ponto realizar perseguições aos “não germânicos”, abrir as portas para o revanchismo da França e desafiar os russos em questões européias pode ter comprometido o futuro alemão, europeu e mundial?

2 Comments:

At 6:24 PM, Blogger professor said...

Esta aberto o Debate ? Foi bom ou ruim o legado Bismarckiano ? Esse Blog esta salvando meu Valentine's Day. muito bem escrito, criativo, e crítico, como uma resenha deve ser. Parabéns e obrigado..

 
At 3:32 PM, Blogger ?rosseforp said...

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