O Manifesto em 360º
Freqüentemente citado como o ponto de partida para uma nova concepção da modernidade, o “Manifesto do Partido Comunista”, de Karl Marx e Friedrich Engels, é, indubitavelmente, uma das mais controversas publicações da história. Inicialmente previsto como um mero panfleto de um modelo inovador de organização operária, o texto acabou por adquirir significados adicionais à medida que seus autores ganharam notoriedade no pensamento da história e na teorização política. No campo das relações internacionais, entretanto, o que se pode perceber – e é defendido por Luís Fernandes no artigo que inspira esta análise – é um desinteresse pela observação da realidade sob uma lente marxiana. Assumindo que o “Manifesto”, em sua nítida defesa de uma associação transnacional da classe trabalhadora, nada teria a acrescentar ao estudo dos sistemas internacionais, os estudiosos limitam-se a defini-lo como antiquado e pouco instrumental.
Se Luís Fernandes estiver certo, entretanto, a tese da inaplicabilidade do raciocínio marxiano cai por água abaixo. Em primeiro lugar, o autor aponta que, ao contrário do que se diz comumente, o livro de Marx e de Engels não defenderia uma visão única – e transnacional – do desenvolvimento do capitalismo e da sociedade. Na realidade, fazendo jus à sua interpretação dialética da realidade, a dupla destacaria a ocorrência simultânea de um esforço de formação de um mercado global e de uma progressiva centralização do poder na figura do Estado. Isto porque, desde o início, para alcançar a ampliação da demanda de sua produção, os burgueses teriam tentado transformar a estrutura política de acordo com seus interesses, progressivamente contestando o absolutismo e levando os meios estatais a funcionarem a seu bel-prazer. Não tivesse este processo tido resultado positivo, e não houvesse por trás de cada capitalista liberal as garantias e as ações de um Estado forte, dificilmente poderia haver uma expansão efetiva dos fluxos de mercadorias. Em resumo, para Fernandes, apesar de superestimarem a transnacionalização em diversos momentos (supondo uma “universalização das relações”), Marx e Engels jamais a teriam suposto isolada.
Talvez o grande motivo para tanta confusão conceitual esteja em uma acepção incorreta do que seria liberalismo. A consideração deste como um fenômeno capaz de romper todas e quaisquer fronteiras políticas, econômicas ou sócio-culturais, acaba por criar uma ilusão de globalização que não corresponde ao que se tem hoje e, tampouco, ao que se tinha à época do lançamento do “Manifesto do Partido Comunista”. Como defende Luís Fernandes, apesar de o capital e de as indústrias se deslocarem com uma cada vez mais intensa freqüência, isto não significa que as identidades nacionais tenham sido colocadas em suspenso. Pelo contrário, dois dos mais bem-sucedidos projetos de industrialização e de ganho de influências, o japonês e o norte-americano, fundamentaram sua ampliação em projetos particulares a seus Estados. Nesta linha, o grande desenho do século XX seria um sistema de comunidades políticas soberanas, organizadas para facilitar a integração de mercados e, com isso, promover as linhas de desenvolvimento capazes de acelerar a lógica própria do capitalismo.
Entre estes artifícios utilizados para otimizar a evolução das forças produtivas, diz o autor, possivelmente o grande destaque seja a capacidade, adquirida pelos Estados, de conviver em meio a esferas separadas do mundo moderno. Admitindo-se a autonomia de noções políticas e econômicas interna e externamente, foi possível administrar o impulso comercial e persistir nos negócios além dos próprios territórios. Em último aspecto, portanto, Luís Fernandes parece defender que a transnacionalidade, apesar de normalmente tomada como o ponto central das teorias de Marx e de Engels, não seria realmente o eixo do pensamento destes estudiosos. Para Fernandes, por ser a internacionalização praticamente uma condição indispensável à expansão dos mercados para um nível global, esta seria a verdadeira protagonista do revolucionário livro de 1848.
Se Luís Fernandes estiver certo, entretanto, a tese da inaplicabilidade do raciocínio marxiano cai por água abaixo. Em primeiro lugar, o autor aponta que, ao contrário do que se diz comumente, o livro de Marx e de Engels não defenderia uma visão única – e transnacional – do desenvolvimento do capitalismo e da sociedade. Na realidade, fazendo jus à sua interpretação dialética da realidade, a dupla destacaria a ocorrência simultânea de um esforço de formação de um mercado global e de uma progressiva centralização do poder na figura do Estado. Isto porque, desde o início, para alcançar a ampliação da demanda de sua produção, os burgueses teriam tentado transformar a estrutura política de acordo com seus interesses, progressivamente contestando o absolutismo e levando os meios estatais a funcionarem a seu bel-prazer. Não tivesse este processo tido resultado positivo, e não houvesse por trás de cada capitalista liberal as garantias e as ações de um Estado forte, dificilmente poderia haver uma expansão efetiva dos fluxos de mercadorias. Em resumo, para Fernandes, apesar de superestimarem a transnacionalização em diversos momentos (supondo uma “universalização das relações”), Marx e Engels jamais a teriam suposto isolada.
Talvez o grande motivo para tanta confusão conceitual esteja em uma acepção incorreta do que seria liberalismo. A consideração deste como um fenômeno capaz de romper todas e quaisquer fronteiras políticas, econômicas ou sócio-culturais, acaba por criar uma ilusão de globalização que não corresponde ao que se tem hoje e, tampouco, ao que se tinha à época do lançamento do “Manifesto do Partido Comunista”. Como defende Luís Fernandes, apesar de o capital e de as indústrias se deslocarem com uma cada vez mais intensa freqüência, isto não significa que as identidades nacionais tenham sido colocadas em suspenso. Pelo contrário, dois dos mais bem-sucedidos projetos de industrialização e de ganho de influências, o japonês e o norte-americano, fundamentaram sua ampliação em projetos particulares a seus Estados. Nesta linha, o grande desenho do século XX seria um sistema de comunidades políticas soberanas, organizadas para facilitar a integração de mercados e, com isso, promover as linhas de desenvolvimento capazes de acelerar a lógica própria do capitalismo.
Entre estes artifícios utilizados para otimizar a evolução das forças produtivas, diz o autor, possivelmente o grande destaque seja a capacidade, adquirida pelos Estados, de conviver em meio a esferas separadas do mundo moderno. Admitindo-se a autonomia de noções políticas e econômicas interna e externamente, foi possível administrar o impulso comercial e persistir nos negócios além dos próprios territórios. Em último aspecto, portanto, Luís Fernandes parece defender que a transnacionalidade, apesar de normalmente tomada como o ponto central das teorias de Marx e de Engels, não seria realmente o eixo do pensamento destes estudiosos. Para Fernandes, por ser a internacionalização praticamente uma condição indispensável à expansão dos mercados para um nível global, esta seria a verdadeira protagonista do revolucionário livro de 1848.

3 Comments:
Manoela, seu texto está muito bem redigido e você sintetizou os principais argumentos do auto. Para seu trabalho ficar completo, você deveria ter aprofundado suas críticas quanto ao texto, pois a proposta da resenha não é apenas resumir o texto.
perdão: do "autor"
Manoela,
Você escreve muito bem, e de fato, as vezes a invejo, mas devido ao sua solicitação de uma segunda opinião e após ter lido com cuidado seu post, sou obrigado a concordar com o Pablo, coisa que não é muito comum.
Para seu consolo, saiba que só concordei com o Pablo após ler o comentário dele e reler seu post. O que me leva a crer que os poderes de correção do monitor são melhores que os meus.
De qualquer modo, a critica ao Manifesto e a exposição crítica do texto do Luis, mostram que compreenderam muito bem o que era importante para as RI.
Além disso, vá se acostumando, os bons alunos são sempre corrigidos com mais rigor mesmo.. Fora as razões políticas, trata-se de mostrar que sempre podemos fazer melhor afora ajudar a cultivar a humildade, virtude tão raro em nós nerds..
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