Tuesday, May 17, 2005

Eu acho que vi um gatinho...

Responda rápido: O que um ratinho russo e o chefe da gangue dos coelhos mortos têm em comum? Se você ainda está tentando descobrir que gangue é essa, é porque ainda não assistiu ao filme “Gangues de Nova Iorque” e nem “Fievel vai para a América”. O ratinho Fievel Mouskewitz e o jovem Amsterdã Vallon são imigrantes que chegam aos Estados Unidos da América em busca de liberdade e oportunidade. Ambos se deparam com dificuldades diferentes e conseguem superá-las, cada um à sua maneira. O pequeno roedor se perde de sua família durante uma tempestade e enfrenta vários perigos até conseguir liderar um levante que pretende expulsar todos os gatos (exceto um que é seu amigo, Tigre) de Nova Iorque. Ainda criança, Vallon é obrigado a enfrentar a perda do pai, que é morto por nativistas durante uma briga entre gangues rivais em Five Points e volta anos depois para se vingar de Bill, o Açougueiro.

“Mas não existem gatos na América, só há queijo pelo chão! Não há nenhum gato na América! Adeus preocupação!” Essa terra mágica onde queijo brota do chão e os gatos só existem nos pesadelos de ratinhos bebês é um ótimo exemplo da visão idealista que povoava o ideário dos imigrantes do século XIX. Apesar de ser um rato, Fievel representa as expectativas de toda uma geração de russos, italianos, chineses e irlandeses que ansiavam pelo momento em que avistariam a Estátua da Liberdade e enriqueceriam milagrosamente.

Se o alegre ratinho tivesse encontrado com Amsterdã posso garantir que teria se tornado amargo e desiludido. O jovem filho do “Pastor” Vallon vive numa Nova Iorque onde vigora a lei do mais forte, e quem dá um passo em falso acaba morto e pendurado em praça pública. Tudo isso num cenário conturbado de Guerra Civil. Talvez não haja nenhum gato na América, mas leões e tigres sedentos de sangue esperam em cada uma das cinco esquinas entre as quais o personagem de Leonardo de Caprio vive. O preconceito dos Nativistas, o alistamento obrigatório para suprir as linhas do exército nortista, a fome, o constante aumento dos preços, a corrupção dos governantes... A Big Apple estava bichada e recebia seus novos inquilinos a pedradas.

É claro que esse cenário de destruição não condiz com um desenho animado voltado para o público infantil. Imagino minha vida se, ao invés de ter crescido com as doces canções de Fievel e Tânia, “Eu sei que há, debaixo do luar, alguém que me ama...” houvesse cantado “There´s a cloud on the New York skyline, innocence dragged across a yellow line. These are the hands that built América...”. Se o desenho animado não corresponde à realidade, pelo menos dá uma sensação confortável de que a integração foi real e o sangue que os imigrantes derramaram no solo americano foi um preço justo em troca da liberdade que conquistaram.

1 Comments:

At 7:05 PM, Blogger professor said...

Deborah sua resenha está excelente, embora eu discorde completamente da sua conclusão Fievel, após uma introdução Butcher..

Levarei em conta que o embaixador foi gentil com você e pagou sua viagem, mas gostaria de saber sinceramente que liberdade foi essa que os imigrantes pagaram com sangue? Liberdade é para os WASPs!!! Lembre-se da conclusão do "Gangues"!!!

Disseram que eu voltei americanizada e se ainda estiver se sentindo muito Carmem Miranda, o antidoto e ler de novo e de novo o 'Manifesto' para saber como nosso amigo da barba se refere a liberdade burguesa...

Só para constar, discordo, discordo, discordo, mas foi a resenha mais criativa que eu li. Parabéns !!

 

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