Ilustração da Batalha de Puebla
Quando, em 16 de setembro de 1810, Miguel Hidalgo y Costilla, um padre católico do vilarejo de Dolores, ordenou a prisão dos peninsulares e convocou índios e mestiços a se manifestarem, a antiga colônia de Nova Espanha começou seu caminho por um século de sangue e de frustrações. Ao iniciarem sua rebelião, entretanto, os dominados e oprimidos, liderados por Hidalgo e por outro padre, Morelos, não poderiam prever isso. Ao som de “Mexicanos, Viva México!”, eles falavam em independência e, julgando não haver, nem mesmo entre os criollos, quem ainda suportasse a subjugação, acreditavam na desvinculação frente à metrópole. Não obstante, apesar de a separação de fato ter ocorrido, as circunstâncias foram bastante diferentes. Em primeiro lugar, o projeto popular, envolvido com as propostas de distribuição fundiária, de suspensão do tributo indígena e de abolição da escravidão, foi considerado deveras radical pela elite criolla. Além disso, temendo a escalada de poder das massas, os grupos de maior poder aquisitivo preferiram uma libertação insólita, obtida por meio de um acordo com o líder do exército repressor metropolitano, o general Agustín Itúrbide. Constando não apenas do poderio econômico, mas também de uma força militar que “virara a casaca”, os criollos conseguiram fazer da independência mexicana um episódio de contenção do povo e uma prenunciação dos rumos nacionais dali em diante. Em 24 de fevereiro de 1821, Itúrbide tomou a frente da junta governativa mexicana – alguns anos após tendo elevado si próprio ao título de imperador.
Ao contrário do que possa parecer, todavia, a vitória do projeto da elite e o sufocamento das camadas populares não significaram, para o México, nem um espectro de calmaria. Afora a própria fragilidade econômica, resquício do período colonial e estendida pela precariedade da infra-estrutura à circulação de mercadorias, a situação política desde o início apresentou rachaduras. De um lado, apareciam os liberais, cuja composição agrupava membros intelectualizados das classes médias, comerciantes e mineradores insatisfeitos com o esvaziamento de estímulos à sua produção. Para estes elementos, o governo mexicano deveria agir pelo progresso, investindo em desenvolvimento. Em contraponto, destacava-se o projeto conservador, sustentado pela Igreja e defendido pelo Exército e pelos grandes proprietários rurais. Para esta corrente, apenas um estado monárquico, bem-estruturado e poderoso teria condições de conter as possíveis insurreições dos oprimidos. Apesar de toda a disputa, os conservadores estiveram à frente do poder até 1854, ano em que a chamada Revolução de Ayutla colocou seus rivais no comando e começou a instituir reformas significativas. Nos dez anos em que estiveram na dianteira do país, os liberais extinguiram os foros militares e eclesiásticos, desamortizaram os bens da Igreja, juraram uma nova Constituição (vigente até 1917) e suprimiram as ordens religiosas. Deixaram como legado uma Igreja Católica desfigurada, impossibilitada de apoiar as correntes mais reacionárias, e um governo dividido em 3 poderes.
Fossem apenas as disputas partidárias o problema do México, entretanto, talvez esta nação tivesse tido alguma chance de superar seu destino. Em diversas ocasiões, contudo, o país sofreu os efeitos de intervenções, de guerras e de desmantelamentos territoriais. Em 1836, imigrantes norte-americanos, insatisfeitos com a postura antiescravista e católica do Estado mexicano, deram o grito de independência da “Lone Star Republic”, hoje Texas. Em 1848, o Tratado de Guadalupe-Hidalgo colocou um ponto final na sangrenta disputa pelos territórios do Novo México e da Califórnia – transferidos para o controle dos EUA. Já em 1861, após uma guerra civil de três anos (a chamada "Guerra da Reforma"), mais uma vez os mexicanos sofreram uma turbulência internacional. Em resposta ao não-pagamento das dívidas adquiridas desde 1858, Espanha, Grã-Bretanha e França resolveram realizar uma invasão conjunta ao país. Contudo, devido à discordância a respeito do melhor meio para esta ação, somente os franceses insistiram na investida. Não tendo tido grandes dificuldades em tomar a Cidade do México, as tropas de Napoleão III tomaram o governo e impuseram um austríaco, Maximiliano I, como monarca. Com a resistência deste em revogar as leis de reforma, Benito Juárez, presidente deposto, uniu suas forças e conclamou os EUA a apoiarem sua causa, em nome da Doutrina Monroe. Tendo como pilar a ajuda norte-americana, obtida logo em seguida ao fim da Guerra da Secessão neste país, os mexicanos conseguiram o “Cinco de Mayo”, ou a vitória definitiva sobre os franceses na Batalha de Puebla.
Com Maximiliano I expulso e Benito Juárez de volta ao poder, alguns podem imaginar que o México tenha enfim enfrentado tempos de normalidade. Não foi isto, todavia, que teve lugar nos últimos 30 anos do século XIX. Um presidente reeleito, uma revolta mal-sucedida, um ataque cardíaco, um novo presidente e, de repente, uma nova rebelião. Seguindo o chamado Plano de Tuxtepec, Porfírio Diaz, antigo herói do “Cinco de Mayo”, tomou a capital em 21 de novembro de 1876, prometendo democracia e atacando o princípio de reeleição. Ironicamente, Diaz foi responsável pelo chamado “porfiriato”, um governo de 35 anos mais preocupado com a manutenção da estabilidade interna e com o estímulo de investimentos estrangeiros do que com os princípios liberais antes proclamados aos quatro cantos. Durante seu longo poderio, Diaz comandou com mão-de-ferro, cooptando os bandidos para sua polícia rural, reprimindo insurreições e supervisionando de perto a entrada e a aplicação de capital externo. Dizendo-se um positivista, Porfírio conseguiu efetuar diversas melhorias nos padrões econômicos do México. Por não calcular os meios, entretanto, abriu as portas para uma das mais radicais guerras civis de todos os tempos, a Revolução Mexicana. Em 1910, quando Emiliano Zapata, Pancho Villa e Pascual Orozco iniciaram suas marchas pela desestabilização das elites, o México parecia relembrar os sermões de Hidalgo e de Morelas. Para o povo sofrido daquele país, tudo tinha mudado e, no entanto, cem anos depois, nada parecia diferente.