Thursday, June 16, 2005

Contagem regressiva ativada

O mundo na virada do século XIX sofria mudanças drásticas na estrutura política, social e econômica. Quanto a isso não existem dúvidas razoáveis, mas o campo que abriga suas causas é vasto e permite discordâncias variadas entre quem se disponha a estudá-lo. Analistas que primem pelo viés marxista podem enxergar na Revolução Industrial a razão principal. Já os sociólogos podem crer que à organização interna do velho continente foi suficientemente forte para domar o impulso do capital e submetê-lo a seus próprios interesses até, no mínimo, 1914.

Se confrontados quanto a esse ponto dificilmente Barraclough e Mayer chegariam a um consenso. Ao tratar do surgimento de novas potências um apresenta o desenvolvimento industrial como fator determinante no deslocamento do centro de poder mundial. Para Barraclough, a Europa, agarrada que estava a estruturas arcaicas e ultrapassadas, deixa-se superar na corrida capitalista e perde espaço para potências emergentes, até então no plano de fundo. Japão, Rússia e Estados Unidos despontam como rivais no Pacífico transformando uma disposição de forças que já durava séculos.

Mayer, no entanto, não esconde de ninguém sua aversão à teoria vigente que atribui a responsabilidade pela queda do “ancien régime” a um movimento do capitalismo que ganhava força e se desprendia dos resquícios de feudalidade. Admira-se com o fato de vários estudiosos praticamente ignorarem a resistência imposta pela velha ordem em assimilando e aproveitando as ferramentas que surgiam para manter-se ativa dentro das novas “regras do jogo”. Se o esforço não foi suficiente para mantê-la na liderança política, ao menos lhe garantiu séculos de domínio inquestionável que são lembrados até hoje.

Uma tentativa de avaliação imparcial cairia no campo da nossa velha conhecida dos estudos sociais, a dialética. Nada que tenha se mantido de pé por crises e intempéries terríveis abriria mão do poder sem lutar. A flexibilidade da antiga ordem pré-industrial e pré-burguesa merece crédito. Mas negar que a economia tenha sido uma questão decisiva não parece uma boa opção. Desde seu surgimento, o capital tem sido uma força revolucionária, com lógica própria e contagiante e a indústria potencializou ao máximo sua energia. Cedo portanto aos argumentos de Barraclough; a Revolução Industrial ao alcançar os demais continentes acionou o “botão de autodestruição” da ordem estabelecida pela Europa e abriu espaço para a I Guerra Mundial e suas seqüentes mudanças.

Wednesday, June 15, 2005

Finalmente a Era dos Impérios

1. Segundo Geoffrey Barraclough, a diferenciação essencial que pode ser feita entre a 1ª e a 2ª Revolução Industrial estaria no grau de impacto gerado por elas sobre as sociedades. Enquanto a primeira teria determinado gradualmente a saída dos homens do campo rumo às cidades, o emprego da mão-de-obra em fábricas e a fundamentação de uma vida econômica completamente diversa, a segunda teria sido mais radical no fomento a mudanças. Isto porque, ao contrário de sua predecessora, ela não apenas foi capaz de alterar o cotidiano das pessoas, mas também de realizar profunda influência sobre o sistema internacional. Com a promoção de um desenvolvimento industrial tão avançado a ponto de só admitir a permanência, no mercado, dos grandes capitais, a 2ª Revolução Industrial comportou a criação de empresas de larga escala e o aprimoramento dos sistemas de transportes e comunicações. Além disso, foi mais abrangente. Estendeu-se para os EUA, para o Japão, para a Rússia. Alçou a Alemanha ao rol de países importantes. Levou, em virtude da crise de superprodução, à busca de novos mercados e ao imperialismo. Modificou, em último aspecto, o tabuleiro e as peças dos grandes confrontos. Se a 1ª Revolução Industrial foi deveras localizada, a 2ª colocou a própria primazia européia em jogo.

2. Fosse preciso definir Imperialismo sem embarcar nas inúmeras armadilhas teóricas que acometem o tema, provavelmente se falaria na demarcação de colônias e de áreas de influência por parte das grandes potências na Ásia, na África e na Oceania. Tanta simplicidade, contudo, talvez esconda as nuances envolvidas no fenômeno. Segundo Lênin, o Imperialismo seria, antes de tudo, a consolidação de um estágio superior do capitalismo. Com uma visão materialista da história, o autor russo defendeu que a procura de novos mercados seria a indicação efetiva de que se atingira o ápice do desenvolvimento das forças produtivas sob a livre concorrência. Assim, o único meio de fugir às crises recorrentes de superprodução e de manter a lucratividade dos negócios dos grandes conglomerados seria a procura de mercados. Sem discordar da magna importância do argumento econômico, Hobsbawn preferiu destacar, entretanto, que não só os anseios do grande capital moveram as incursões nos outros continentes. Em sua argumentação, ele lembrou o possível uso do Imperialismo como uma válvula de escape para os crescentes problemas intraestatais e como um poderoso artifício para a elevação da auto-estima do homem branco (mito da superioridade e mito da missão civilizatória). Em grande parte por seu caráter menos determinista, o autor inglês parece ter a explicação mais completa sobre a prática imperialista.

Conclusão: Esforçando-se para relacionar a 2ª Revolução Industrial ao Imperialismo, o caminho mais fácil parece ser a acepção da condição econômica que a primeira criou como uma das razões (talvez a mais importante) para a ocorrência do último. Como parece ser consenso entre os estudiosos, o intenso desenvolvimento técnico-científico atingido por volta da década de 1860 alterou por completo a lógica dos negócios. Os novos setores industriais demandavam matérias-primas só abundantes em áreas distantes, como a borracha da Amazônia. O alto custo de modernização dos meios de produção limitava o número de fornecedores e promovia forte concentração do capital. Os bancos deixaram de ser apenas credores e ganharam protagonismo. Por fim, o crescimento de produtividade foi tão absurdo que se chegou a um ponto em que não havia mais consumidores para tanto. Justamente por isso, a solução encontrada teria sido a procura de novos mercados em regiões “longínquas” do planeta, preferencialmente com a sustentação de protecionismos e de outras vantagens aos empreendedores. Para apoiar as “aventuras” dos principais investidores nacionais – mas não apenas –, as grandes potências passariam a disputar o poder também fora da Europa. Estava criado o Imperialismo.

Saturday, June 11, 2005

2a. Revolução Industrial

Responda as questões abaixo e responda até QUARTA-FEIRA 15/06.

1. Diferencie a 1a. da 2a. Revolução industrial enfatizando o impacto de ambas na configuração do Sistema Internacional (G. Barraclough).

2. Defina Imperialismo, e discuta as definiçÕes de Lênin e Hobsbawn.

LIMITE: 1 paragrafo cada questão e mais um parágrafo de conclusão relacionando ambas as questões. Máximo de 15 linhas cada parágrafo.

Thursday, June 09, 2005

Vergonha em Sedan

Paris - 2 de Setembro de 1870

Notícias aterradoras chegam da frente de batalha. Na noite de ontem o rei Napoleão III foi feito prisioneiro após sua derrota em Sedan. Apesar da vitória inicial em Saarbrücken, os embates seguintes não foram favoráveis ao exército francês. Wissembourg, Vionville, Gravelotte e Beaumont não alcançaram bom êxito e culminaram na divisão, forçada pelos prussianos, das forças dos marechais Bazaine e MacMahon. Com Bazaine acuado em Metz, o rei fez uma última tentativa de reunir suas tropas e, juntando-se a MacMahon, marchou rumo a batalha que terminaria com a rendição francesa e sua conseqüente captura.

Esmagadas pelo general Moltke, nossas tropas, lideradas pelo próprio rei, se renderam esta tarde. A carta de rendição assinada por Napoleão III na presença de Bismarck acordava não só sua rendição como também o fim da guerra. No fim das contas, as tropas de Bazaine são as últimas ainda em liberdade. Os números do desastre incluem: três mil mortos, quatorze mil feridos e mais de oitenta mil prisioneiros, entre os quais trinta e nove generais e o próprio monarca.

Napoleão continua nas mãos dos prussianos e o futuro próximo apresenta-se incerto. A guerra, que começou pelo temor real de ver subir ao trono espanhol um aliado da Prússia, pode terminar com a mudança do próprio trono da França. Paris já começa a fervilhar ante a ameaça inimiga e, insatisfeita com a demonstração de covardia da rápida capitulação real, inspira a revolta do povo. Já se ouvem rumores abafados sobre Revolução e República enquanto nosso amado monarca muito provavelmente descansa na companhia do rei Guilherme I.

Tuesday, June 07, 2005

Um nome marcado a ferro


Otto von Bismarck

Quando, em 23 de setembro de 1862, Otto von Bismarck foi declarado primeiro-ministro do Reino da Prússia, a Europa começou a trilhar um caminho diverso do que vivera até então. Alçado ao poder em meio a uma disputa entre o Rei e o Parlamento pela definição do orçamento das Forças Armadas, o austero ex-diplomata usaria uma incrível engenhosidade estratégica e uma crescente máquina industrial para marcar um ponto de mudança no equilíbrio continental. Antes de analisar como foi este processo e quais foram suas conseqüências, no entanto, faz-se necessário descrever o cenário internacional prévio.

Paralelamente à ascensão de Bismarck ao poder prussiano, o sistema que regera o mundo desde o Congresso de Viena vinha sofrendo duros golpes. A Guerra na Criméia acabara havia menos de uma década, destruindo qualquer resquício da Santa Aliança e fundamentando desconfianças múltiplas entre os governantes das grandes potências. A França de Napoleão III emergia como um Estado capaz dos mais variados atos para recuperar seu prestígio e sua imponência; a Grã-Bretanha concentrava esforços na realização do imperialismo. Em pior situação, a Rússia administrava os efeitos políticos e econômicos da derrota no Mediterrâneo, além de nutrir um certo desprezo por uma Áustria que, enfraquecida, abandonara o princípio das legitimidades e apoiara a coalizão anglo-francesa na década anterior. O Tzar não imaginava – e é compreensível que não o fizesse –, entretanto, que o grande revés para os austríacos já começava a ser preparado. Empenhados na resolução das inúmeras disputas internas e preocupados com a contínua eclosão de revoltas nacionalistas dentro de seus domínios, os Habsburgos há muito haviam perdido o poder de barganha tão minuciosamente construído por Metternich. Às voltas com problemas domésticos, não se interessavam, em curto prazo, pela unificação germânica e, tampouco, atentavam o quanto deveriam para os passos trilhados por sua vizinha Prússia. Não à toa, quando os líderes austríacos captaram a ameaça a eles apresentada por Bismarck, já era tarde demais para “se virar o jogo”.

Associar a perda de influência da Áustria apenas a seus problemas internos, todavia, incorreria em grave equívoco. Mais do que falta de percepção dos Habsburgos, foi determinante para uma unificação liderada pela Prússia a capacidade de Bismarck de mesclar a diplomacia (adaptando a raison d’État para realpolitik) com o poderio bélico para atingir seus objetivos. Nas três guerras em que se envolveu para promover a união alemã, o chamado Chanceler de Ferro tanto induziu, com as palavras, seus adversários ao conflito quanto conseguiu vitórias arrasadoras. Utilizando as flagrantes diferenças de administração dos ducados adquiridos para a Confederação Germânica três anos antes, ele desafiou o poder austríaco. Manobrando o ego e as aspirações de Napoleão III, ele teve o êxito de fazer a guerra que garantiu os últimos territórios necessários à formação da Alemanha. Em todos estes episódios – e em qualquer outro em que se envolveu após 1871 –, deixando explícito seu desprendimento em relação a qualquer ética específica, preferindo, à la Richelieu, ater-se apenas ao que interessasse e coubesse a seu Estado.

Em último aspecto, o principal legado que Otto von Bismarck deixou para a história foi sua quase paradoxal inclinação para a moderação. Sem jamais permitir que a Prússia e, posteriormente, a Alemanha dessem “passos maiores do que as pernas”, ele se deteve a uma criteriosa mensuração de suas perspectivas antes de tomar qualquer decisão. Talvez por isso, apesar de sua postura conservadora, exposta na lealdade ao rei e em relativa subjugação do Parlamento, ele tenha sido também um grande modernizador. Conhecendo a fundo as debilidades das áreas que comandou, ele teve a preocupação de reformular suas Forças Armadas (implementando a noção de serviço militar como um dever cívico em si), de unificar mercados, de incentivar a indústria. Não satisfeito, fez o que pôde para impor seu país na corrida imperialista e para convencer os nacionais da importância de uma germanização que, a seu modo, fosse capaz de fazer frente à forte cultura francesa (por ele considerada medíocre). Fica em aberto, entretanto, definir se a capacidade de Bismarck de levar a Alemanha ao rol das grandes potências compensou os reveses decorrentes de alguns de seus atos. Até que ponto realizar perseguições aos “não germânicos”, abrir as portas para o revanchismo da França e desafiar os russos em questões européias pode ter comprometido o futuro alemão, europeu e mundial?

Thursday, June 02, 2005

O Manifesto em 360º

Freqüentemente citado como o ponto de partida para uma nova concepção da modernidade, o “Manifesto do Partido Comunista”, de Karl Marx e Friedrich Engels, é, indubitavelmente, uma das mais controversas publicações da história. Inicialmente previsto como um mero panfleto de um modelo inovador de organização operária, o texto acabou por adquirir significados adicionais à medida que seus autores ganharam notoriedade no pensamento da história e na teorização política. No campo das relações internacionais, entretanto, o que se pode perceber – e é defendido por Luís Fernandes no artigo que inspira esta análise – é um desinteresse pela observação da realidade sob uma lente marxiana. Assumindo que o “Manifesto”, em sua nítida defesa de uma associação transnacional da classe trabalhadora, nada teria a acrescentar ao estudo dos sistemas internacionais, os estudiosos limitam-se a defini-lo como antiquado e pouco instrumental.

Se Luís Fernandes estiver certo, entretanto, a tese da inaplicabilidade do raciocínio marxiano cai por água abaixo. Em primeiro lugar, o autor aponta que, ao contrário do que se diz comumente, o livro de Marx e de Engels não defenderia uma visão única – e transnacional – do desenvolvimento do capitalismo e da sociedade. Na realidade, fazendo jus à sua interpretação dialética da realidade, a dupla destacaria a ocorrência simultânea de um esforço de formação de um mercado global e de uma progressiva centralização do poder na figura do Estado. Isto porque, desde o início, para alcançar a ampliação da demanda de sua produção, os burgueses teriam tentado transformar a estrutura política de acordo com seus interesses, progressivamente contestando o absolutismo e levando os meios estatais a funcionarem a seu bel-prazer. Não tivesse este processo tido resultado positivo, e não houvesse por trás de cada capitalista liberal as garantias e as ações de um Estado forte, dificilmente poderia haver uma expansão efetiva dos fluxos de mercadorias. Em resumo, para Fernandes, apesar de superestimarem a transnacionalização em diversos momentos (supondo uma “universalização das relações”), Marx e Engels jamais a teriam suposto isolada.

Talvez o grande motivo para tanta confusão conceitual esteja em uma acepção incorreta do que seria liberalismo. A consideração deste como um fenômeno capaz de romper todas e quaisquer fronteiras políticas, econômicas ou sócio-culturais, acaba por criar uma ilusão de globalização que não corresponde ao que se tem hoje e, tampouco, ao que se tinha à época do lançamento do “Manifesto do Partido Comunista”. Como defende Luís Fernandes, apesar de o capital e de as indústrias se deslocarem com uma cada vez mais intensa freqüência, isto não significa que as identidades nacionais tenham sido colocadas em suspenso. Pelo contrário, dois dos mais bem-sucedidos projetos de industrialização e de ganho de influências, o japonês e o norte-americano, fundamentaram sua ampliação em projetos particulares a seus Estados. Nesta linha, o grande desenho do século XX seria um sistema de comunidades políticas soberanas, organizadas para facilitar a integração de mercados e, com isso, promover as linhas de desenvolvimento capazes de acelerar a lógica própria do capitalismo.

Entre estes artifícios utilizados para otimizar a evolução das forças produtivas, diz o autor, possivelmente o grande destaque seja a capacidade, adquirida pelos Estados, de conviver em meio a esferas separadas do mundo moderno. Admitindo-se a autonomia de noções políticas e econômicas interna e externamente, foi possível administrar o impulso comercial e persistir nos negócios além dos próprios territórios. Em último aspecto, portanto, Luís Fernandes parece defender que a transnacionalidade, apesar de normalmente tomada como o ponto central das teorias de Marx e de Engels, não seria realmente o eixo do pensamento destes estudiosos. Para Fernandes, por ser a internacionalização praticamente uma condição indispensável à expansão dos mercados para um nível global, esta seria a verdadeira protagonista do revolucionário livro de 1848.

Tuesday, May 31, 2005

A Liberdade enfim lança seu grito!

16 de Setembro de 1810 - Dolores

Esta manhã, no pátio em frente à paróquia de nosso pequeno povoado, após o repicar solene dos sinos da igreja, o povo se reuniu para ouvir o inflamado discurso do padre Miguel Hidalgo y Costilla. A opressão que sofremos por parte do ilegítimo governante francês que usurpou o trono de nosso verdadeiro rei não pode mais continuar e, como líder do movimento chamado de “Los Insurgentes”, padre Hidalgo foi o primeiro a espalhar as boas novas.

A conspiração de Queretáro estava preparada para agir em outubro, mas um traidor levou o grupo a adiantar-se. Junto de outros defensores da independência da Nova Espanha, como Ortiz de Domínguez, Allende e Aldama, padre Hidalgo se dirigiu ao povo mostrando o quanto essa situação em que vivemos é vergonhosa e, sendo inaceitável até para escravos, quanto mais para nós, homens livres.

A mão daqueles que se dispuserem a levantar espadas em nome da liberdade será guiada por Deus e sua vida protegida por Nossa Senhora de Guadalupe. Já não há tempo para covardia ou subserviência àqueles que nos exploram. Os cárceres já começam a ser abertos. O povo já corre pelas ruas, enquanto nossos homens se organizam contra o exército opressor. O clamor emocionado do padre foi só o primeiro entre muitos que ainda virão. Até que, muito em breve, possamos elevar nossas vozes em brados de júbilo por nossa terra enfim liberta.

Viva então, a Nossa Senhora de Guadalupe! Viva a religião! Viva Fernando VII! Viva à América pela qual combatemos! E abaixo ao governo corrupto!

México (1810 - 1910): independência, despedaçamento e frustração


Ilustração da Batalha de Puebla


Quando, em 16 de setembro de 1810, Miguel Hidalgo y Costilla, um padre católico do vilarejo de Dolores, ordenou a prisão dos peninsulares e convocou índios e mestiços a se manifestarem, a antiga colônia de Nova Espanha começou seu caminho por um século de sangue e de frustrações. Ao iniciarem sua rebelião, entretanto, os dominados e oprimidos, liderados por Hidalgo e por outro padre, Morelos, não poderiam prever isso. Ao som de “Mexicanos, Viva México!”, eles falavam em independência e, julgando não haver, nem mesmo entre os criollos, quem ainda suportasse a subjugação, acreditavam na desvinculação frente à metrópole. Não obstante, apesar de a separação de fato ter ocorrido, as circunstâncias foram bastante diferentes. Em primeiro lugar, o projeto popular, envolvido com as propostas de distribuição fundiária, de suspensão do tributo indígena e de abolição da escravidão, foi considerado deveras radical pela elite criolla. Além disso, temendo a escalada de poder das massas, os grupos de maior poder aquisitivo preferiram uma libertação insólita, obtida por meio de um acordo com o líder do exército repressor metropolitano, o general Agustín Itúrbide. Constando não apenas do poderio econômico, mas também de uma força militar que “virara a casaca”, os criollos conseguiram fazer da independência mexicana um episódio de contenção do povo e uma prenunciação dos rumos nacionais dali em diante. Em 24 de fevereiro de 1821, Itúrbide tomou a frente da junta governativa mexicana – alguns anos após tendo elevado si próprio ao título de imperador.

Ao contrário do que possa parecer, todavia, a vitória do projeto da elite e o sufocamento das camadas populares não significaram, para o México, nem um espectro de calmaria. Afora a própria fragilidade econômica, resquício do período colonial e estendida pela precariedade da infra-estrutura à circulação de mercadorias, a situação política desde o início apresentou rachaduras. De um lado, apareciam os liberais, cuja composição agrupava membros intelectualizados das classes médias, comerciantes e mineradores insatisfeitos com o esvaziamento de estímulos à sua produção. Para estes elementos, o governo mexicano deveria agir pelo progresso, investindo em desenvolvimento. Em contraponto, destacava-se o projeto conservador, sustentado pela Igreja e defendido pelo Exército e pelos grandes proprietários rurais. Para esta corrente, apenas um estado monárquico, bem-estruturado e poderoso teria condições de conter as possíveis insurreições dos oprimidos. Apesar de toda a disputa, os conservadores estiveram à frente do poder até 1854, ano em que a chamada Revolução de Ayutla colocou seus rivais no comando e começou a instituir reformas significativas. Nos dez anos em que estiveram na dianteira do país, os liberais extinguiram os foros militares e eclesiásticos, desamortizaram os bens da Igreja, juraram uma nova Constituição (vigente até 1917) e suprimiram as ordens religiosas. Deixaram como legado uma Igreja Católica desfigurada, impossibilitada de apoiar as correntes mais reacionárias, e um governo dividido em 3 poderes.

Fossem apenas as disputas partidárias o problema do México, entretanto, talvez esta nação tivesse tido alguma chance de superar seu destino. Em diversas ocasiões, contudo, o país sofreu os efeitos de intervenções, de guerras e de desmantelamentos territoriais. Em 1836, imigrantes norte-americanos, insatisfeitos com a postura antiescravista e católica do Estado mexicano, deram o grito de independência da “Lone Star Republic”, hoje Texas. Em 1848, o Tratado de Guadalupe-Hidalgo colocou um ponto final na sangrenta disputa pelos territórios do Novo México e da Califórnia – transferidos para o controle dos EUA. Já em 1861, após uma guerra civil de três anos (a chamada "Guerra da Reforma"), mais uma vez os mexicanos sofreram uma turbulência internacional. Em resposta ao não-pagamento das dívidas adquiridas desde 1858, Espanha, Grã-Bretanha e França resolveram realizar uma invasão conjunta ao país. Contudo, devido à discordância a respeito do melhor meio para esta ação, somente os franceses insistiram na investida. Não tendo tido grandes dificuldades em tomar a Cidade do México, as tropas de Napoleão III tomaram o governo e impuseram um austríaco, Maximiliano I, como monarca. Com a resistência deste em revogar as leis de reforma, Benito Juárez, presidente deposto, uniu suas forças e conclamou os EUA a apoiarem sua causa, em nome da Doutrina Monroe. Tendo como pilar a ajuda norte-americana, obtida logo em seguida ao fim da Guerra da Secessão neste país, os mexicanos conseguiram o “Cinco de Mayo”, ou a vitória definitiva sobre os franceses na Batalha de Puebla.

Com Maximiliano I expulso e Benito Juárez de volta ao poder, alguns podem imaginar que o México tenha enfim enfrentado tempos de normalidade. Não foi isto, todavia, que teve lugar nos últimos 30 anos do século XIX. Um presidente reeleito, uma revolta mal-sucedida, um ataque cardíaco, um novo presidente e, de repente, uma nova rebelião. Seguindo o chamado Plano de Tuxtepec, Porfírio Diaz, antigo herói do “Cinco de Mayo”, tomou a capital em 21 de novembro de 1876, prometendo democracia e atacando o princípio de reeleição. Ironicamente, Diaz foi responsável pelo chamado “porfiriato”, um governo de 35 anos mais preocupado com a manutenção da estabilidade interna e com o estímulo de investimentos estrangeiros do que com os princípios liberais antes proclamados aos quatro cantos. Durante seu longo poderio, Diaz comandou com mão-de-ferro, cooptando os bandidos para sua polícia rural, reprimindo insurreições e supervisionando de perto a entrada e a aplicação de capital externo. Dizendo-se um positivista, Porfírio conseguiu efetuar diversas melhorias nos padrões econômicos do México. Por não calcular os meios, entretanto, abriu as portas para uma das mais radicais guerras civis de todos os tempos, a Revolução Mexicana. Em 1910, quando Emiliano Zapata, Pancho Villa e Pascual Orozco iniciaram suas marchas pela desestabilização das elites, o México parecia relembrar os sermões de Hidalgo e de Morelas. Para o povo sofrido daquele país, tudo tinha mudado e, no entanto, cem anos depois, nada parecia diferente.